Meu caso de amor com os livros é antigo, vem desde que eu era criança.
Filha de professores de Português, minha casa sempre teve livros, muitos
livros. Eram infanto-juvenis, contos de fada, livros de poesia... E, embora a
rua fosse um grande atrativo, eu sempre apreciei os livros e soube conciliar a
alegria, o barulho e a coletividade com o prazer solitário e silencioso da
leitura. Eu me recordo de um livro de capa dura de contos de fada que eu lia
cotidianamente. Lia outros também, mas aquele era sagrado, não podia faltar.
Dentro dele havia as minhas histórias preferidas e elas eram lidas várias
vezes; parecia que eu queria incorporá-las em mim. Todas eram mais ou menos
iguais: contavam de uma personagem injustiçada sempre perseguida por alguém,
mas o final sempre era feliz... e eu me deleitava com os finais felizes, com o
triunfo do bem sobre o mal! Além desse livro, que era o meu preferido, havia os
de poesia – “Esse, do Ferreira Gullar, você ainda não pode ler”, dizia o meu
pai, “não é próprio para a sua idade”. E eu fazia questão de ler Ferreira
Gullar e de gostar dele. E eu amava também os romances de Laura Ingalls Wilder,
emprestados de uma amiga também leitora. Embora fossem longos, eu os lia bem
devagarinho, para não terminar logo e ter que me deparar com o vazio, com a
ausência de fantasia. Hoje, comento com meus alunos que eu não seria eu mesma,
não fosse o que li e leio. Tudo o que li faz parte de mim. E não há como gostar
de ler sem gostar de escrever. Porém, meu envolvimento com a escrita foi mais
tardio: a partir da 8ª série é que passei a gostar do desafio que é escrever.
Não é à toa que para Drummond a relação com a escrita é metaforizada como sendo
uma “luta”: e eu aceito o desafio. Bethânia Fochi

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